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Insights · Modelos que decidem

Qual nota de corte usar num modelo de propensão?

Se o seu time entregou um modelo de propensão com boas métricas e a campanha não trouxe o retorno prometido, o problema provavelmente não está no modelo. Está no número que decide quem recebe a oferta.

26 set. 2026 · 6 min leitura

A pergunta que o modelo não responde

Um modelo de propensão ordena clientes pela chance de comprar, cancelar ou pagar. Ele não diz para quem ligar amanhã. Essa decisão depende de três números que não estão no modelo: quanto custa um contato, quanto vale um acerto e quantos contatos o time consegue fazer.

Cenário ilustrativo

Uma empresa tem 10 mil clientes na base e uma equipe comercial. Cada ligação custa R$ 8 e cada venda deixa R$ 120 de margem. O modelo é bom, com AUC perto de 0,78. Com o mesmo modelo, três escolhas de corte levam a três resultados muito diferentes:

  • ligar para todo mundo: prejuízo de cerca de R$ 3,6 mil;
  • usar o corte padrão das bibliotecas (0,5): quase ninguém recebe ligação, e o resultado fica perto de zero;
  • usar o corte calculado pelo custo: lucro de cerca de R$ 27,6 mil.

Os números vêm de uma simulação com dados sintéticos, montada a partir de um problema real. A diferença entre prejuízo e lucro não está no algoritmo.

O que costuma dar errado

  • O corte padrão fica no lugar. Quase toda biblioteca decide em 0,5. Esse valor só é o certo quando uma venda vale exatamente o dobro do contato.
  • O corte é escolhido por uma métrica técnica. F1, índice de Youden, "o ponto mais perto do canto da curva ROC": nenhum deles usa quanto custa cada erro para o seu negócio.
  • O score não é uma probabilidade. Bases rebalanceadas no treino, pesos de classe e alguns algoritmos (no estudo clássico, boosting do tipo AdaBoost e SVMs) costumam ordenar bem e errar a escala. A regra de custo aplicada a um score descalibrado erra o lugar do corte, mesmo com a AUC intacta.
  • O corte fica congelado. A taxa de compra cai com a sazonalidade, a margem muda, o custo da equipe muda, e o corte continua o do dia do deploy.
  • Ninguém é dono do corte. O time de dados entrega o modelo, o comercial usa a lista, e o número que liga os dois não tem responsável.

Como decidir, em quatro passos

  1. Coloque preço no erro. Custo de um contato (C) e margem de um acerto (V): o que a venda deixa depois de custos e descontos, não o preço. Se houver mais de um tipo de erro caro, escreva todos.
  2. Garanta que o score é uma probabilidade. Trace a curva de calibração num conjunto separado (holdout) e calibre se for preciso. Sem isso, qualquer regra de valor esperado erra.
  3. Calcule o corte pelo valor esperado e respeite a capacidade. Com o score calibrado, e supondo que quem não recebe contato não compraria sozinho, o corte ótimo é C/V: vale contatar quem tem chance maior do que o custo dividido pelo valor. Se muita gente compraria de qualquer jeito, a pergunta passa a ser quem compra por causa do contato, e isso é um problema de uplift. Se o time não dá conta de todos acima da linha, a lista para na capacidade, e o que decide é a precisão no topo.
  4. Revise o corte, não só o modelo. Recalcule o corte quando custo ou margem mudarem, e recalibre o score quando a taxa base mudar. E mantenha dois pequenos grupos sorteados: alguns clientes abaixo do corte que recebem contato mesmo assim, para saber o que o corte está deixando de fora, e um grupo de controle acima do corte que não recebe, para medir o efeito real da ação.

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Isso vale para a sua empresa se…
  • um score decide quem recebe contato, oferta, crédito ou revisão;
  • o corte foi escolhido pelo time técnico, sem o custo do negócio na conta;
  • ninguém recalcula o corte quando a margem ou o custo mudam;
  • o modelo foi treinado com dados rebalanceados e ninguém mediu a calibração;
  • vocês não sabem o que aconteceu com quem ficou abaixo do corte.
Próximo passo

Num diagnóstico curto, olhamos o seu modelo, o custo do seu erro e a capacidade do seu time, e dizemos qual corte usar e quanto dinheiro está na mesa. Se não valer a pena mexer, dizemos isso também.

No Caderno de LaboratórioQuer a matemática, o simulador e os modos de falha em detalhe?Como ganhar dinheiro com um modelo de propensão

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